Do diploma de jornalista

2009 foi um ano de fortes emoções para quem sonhava em ocupar a bancada do Jornal Nacional ou ser redator-chefe na Folha. Foi nesse ano que o diploma de jornalista deixou de ser obrigatório para exercer a profissão, e a comunidade entrou em polvorosa, em especial a estudantil. 

Eu fazia parte desse grupo. Estava no terceiro semestre do curso de jornalismo e me senti injustiçado. À época, redigi um “desabafo”, que transcrevo abaixo. Aos 19 anos, eu não sabia direito do que estava falando, então me deem algum crédito. Por fim, vale ressaltar: 8 anos depois, não penso mais da mesma maneira, claro. Ainda tirarei um tempo para falar da minha atual opinião sobre o tema.

A notícia de que não seria mais necessário diploma para ser jornalista me deixou bastante indignado a princípio. Talvez mais pelas circunstâncias nas quais fiquei sabendo disso do que exatamente pela medida. Lembro-me bem da cena: sentado em um banco no campus da universidade, mal notei quando dois colegas de classe pararam à minha frente e me convidaram para uma “passeata contra o fim do diploma”, prevista para a semana seguinte. Quando me dei conta, já tinha sido convencido – com bastante veemência, é bom ressaltar – de que a nossa categoria acabara de ser apunhalada pelas costas, de que a mensalidade que eu pagava passaria a não valer mais nada a partir daquele dia.

Ainda nesse clima de incredulidade e louco para bater panelas em frente ao hotel onde estava hospedado Gilmar Mendes, comecei a procurar mais informações sobre o caso quando cheguei em casa. E foi lendo muitas opiniões de antigos profissionais da área e também de outros “focas” como eu que pude formar a minha posição sobre o assunto.

Como a maioria dos jornalistas, de acordo com uma pesquisa divulgada pelo site Comunique-se, sou contra o fim da obrigatoriedade do diploma. Muitos falam em novos tempos, em conversão tecnológica, em blogs e em liberdade de expressão. A questão é que antes da tal medida, diversas colunas e artigos já eram feitos por outros profissionais, desde bacharéis em Direito até economistas. O que não se via era o jornalismo factual feito por esse pessoal. Que jornal mandaria um filósofo cobrir o possível afastamento de José Sarney do Senado? Que revista semanal entrega a um psicólogo a responsabilidade de escrever uma reportagem especial sobre essa nova gripe que vem causando pânico e mortes no Brasil?

A pergunta que fica é: se não vai mudar nada, por que todo mundo está reclamando da medida? Porque vai mudar, sim. O jornalismo não vai virar um picadeiro, a maioria dos jornais e revistas não vai deixar de procurar bons universitários e o sigilo da não vai entrar em extinção. Mas é previsível que o piso salarial, que já não é lá essas coisas, deva baixar. Também não é difícil imaginar o prestígio que o curso vai perder, levando muitos estudantes a se refugiar em outra área, como Relações Públicas.

Não sou conservador nem reacionário, mas dizer que a obrigatoriedade do diploma fere a liberdade de expressão é um disparate. Todos têm a liberdade de se expressar e isso está cada vez mais evidenciado com a revolução da Internet, que fez surgir blogs e mais blogs, adotou novos e velhos comentaristas e, infelizmente, tem recrutado muitos “pseudo-jornalistas”.

Outro argumento é a menção aos grandes jornalistas sem formação que fizeram e ainda fazem muito pelo jornalismo brasileiro. Entretanto, o que muitos não se lembram, ou fazem questão de ignorar, é que esses profissionais vêm de outro momento da nossa história, de outro momento do jornalismo. Alegar que hoje alguém teria a mesma chance de crescer e fazer carreira em um grande jornal é puro cinismo.

Do alto dos meus 19 anos eu posso estar sendo ingênuo, mas ainda não vi nenhum lado bom, nenhuma vantagem para o jornalismo, para os jornalistas e – o mais importante – para a sociedade brasileira no fim da obrigatoriedade do diploma. Por isso continuarei sendo contra a medida e a favor do bom ensino até que eu me veja enganado em minhas opiniões.

Escrito em 2009. Para ver mais textos produzidos antes da criação deste blog, use a tag “arquivo”.

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